O simbolismo do purgatório em Over the Garden Wall

Há séries que parecem simples na superfície e escondem algo muito mais sombrio embaixo. Over the Garden Wall é uma delas, talvez a mais perturbadora de todas, justamente porque nunca grita. Ela sussurra.

Lançada pelo Cartoon Network em 2014, a minissérie de dez episódios conta a história de dois irmãos, Wirt e Greg perdidos numa floresta misteriosa chamada O Desconhecido. Com a ajuda de um pássaro chamado Beatrice e guiados por um velho lenhador, eles tentam encontrar o caminho para casa enquanto fogem de uma criatura sombria conhecida apenas como A Besta.

É uma história de aventura, certo?

Não exatamente.


O que a série realmente está contando

Existe uma teoria tão bem fundamentada nos detalhes da série que é difícil chamá-la apenas de teoria de que Wirt e Greg não estão perdidos numa floresta encantada.

Eles estão mortos. Ou quase.

Mais precisamente: estão no purgatório.

No último episódio, a série revela o que aconteceu antes de tudo. Wirt e Greg estavam fugindo de um cemitério à noite, depois de Wirt cometer uma gafe constrangedora numa festa. Correndo pela beira de um lago, os dois caem na água. O episódio corta. E então, de volta ao presente, vemos os dois sendo resgatados por mergulhadores, inconscientes, quase sem sinais vitais.

Tudo o que vivemos nos dez episódios anteriores aconteceu nesse intervalo. No momento entre a queda e o resgate. No espaço entre a vida e a morte.


Os sinais que estavam lá desde o início

Quando você assiste novamente sabendo disso, os detalhes saltam aos olhos.

O nome do lugar. O Desconhecido (The Unknown, no original) não é um nome geográfico. É uma descrição do estado em que Wirt e Greg se encontram. O desconhecido, para os humanos, sempre foi a morte.

A Besta e as almas perdidas. A Besta se alimenta de crianças que se perdem no Desconhecido, mas não de qualquer forma. Ela as transforma lentamente em Edelwood, as árvores negras cujo óleo alimenta sua lanterna. O processo não é físico: é espiritual. A Besta convence suas vítimas de que não há saída, que é melhor desistir, que O Desconhecido é seu lar agora. Ela não mata, ela faz com que a vítima escolha a morte.

É exatamente o que o desespero faz com quem está entre a vida e a morte. A Besta é a tentação de render-se.

O Lenhador e sua lanterna. O velho lenhador carrega uma lanterna que, descobrimos, contém a alma de sua filha. Ou assim ele acredita. A Besta o convenceu disso para mantê-lo alimentando a chama indefinidamente escravizado pela esperança de salvar alguém que talvez já esteja salva sem ele. O lenhador é um homem preso entre dois mundos, incapaz de seguir em frente por uma mentira que escolheu acreditar.

Beatrice e a culpa. A história de Beatrice transformada em pássaro por uma maldição é sobre um momento de impulsividade que destruiu sua família. Ela passa a série inteira carregando essa culpa, tentando corrigi-la. Sua jornada é um arco de redenção. E a redenção, em narrativas de purgatório, é exatamente o que permite a passagem.


A estrutura dantesca

A referência mais óbvia e mais elegante é A Divina Comédia de Dante.

Na obra de Dante, o purgatório não é um lugar de punição, mas de transformação. As almas ali não estão condenadas, estão em trânsito. Cada encontro, cada provação, cada decisão as aproxima ou afasta da saída. O guia de Dante é Virgílio, um ser que conhece o caminho mas não pode segui-lo até o fim. O guia de Wirt e Greg é o Lenhador igualmente preso, igualmente limitado.

Dante desce ao inferno antes de subir ao purgatório. Wirt e Greg caem antes de tentar voltar à superfície.

A floresta do Desconhecido tem estações que mudam sem lógica, habitantes que parecem normais mas carregam segredos pesados, e uma regra não dita: quem desiste, fica. Quem continua, talvez saia.


O que Wirt representa

Dos dois irmãos, Wirt é o mais importante para entender a série.

Greg é uma criança ingênua, otimista, presente. Ele não entende o peso do que está vivendo porque ainda não tem o peso que os adultos carregam. Ele simplesmente segue em frente.

Wirt, por outro lado, está paralisado. Ele é ansioso, inseguro, cheio de vergonha. A série começa com ele fugindo de uma situação que o humilhou, e essa fuga é literalmente o que os coloca em perigo. Wirt não quer enfrentar nada. Quer desaparecer.

O Desconhecido é, para Wirt, uma externalização do seu estado mental. Um lugar onde as consequências das suas escolhas se tornam monstros reais. Onde o desejo de sumir quase se torna permanente.

No fim, ele não é salvo por coragem ou força. É salvo por escolher voltar, por decidir que a vida constrangedora e imperfeita do outro lado é preferível ao nada confortável do Desconhecido.

É uma mensagem surpreendentemente profunda para uma série animada de dez episódios.


Os detalhes que a maioria não percebe

Além da estrutura narrativa, a série está cheia de detalhes visuais e sonoros que reforçam a teoria do purgatório.

  • A estética vitoriana e americana rural do século XIX. Esse período é associado a uma cultura de morte muito mais presente no cotidiano, luto, cemitérios, espiritismo, memento mori. A escolha não é aleatória.
  • A lanterna como alma. Em várias tradições, a chama representa a alma humana. A lanterna da Besta, alimentada por óleo de Edelwood, que são crianças transformadas, é uma imagem de almas aprisionadas literalmente iluminando o caminho de quem as aprisionou.
  • A música. A trilha sonora da série é composta de canções folclóricas americanas antigas, muitas delas originalmente associadas a morte, luto e passagem. “Into the Unknown”, a canção de abertura, é cantada em tom de despedida.
  • O chapéu de Greg. Greg usa um pote de bule como chapéu durante toda a série. No episódio final, descobrimos que esse objeto pertencia ao cemitério por onde estavam passando quando caíram. Ele literalmente carrega um objeto de um lugar de morte.

Por que isso importa

Over the Garden Wall poderia ter sido apenas um conto de fadas estranho e bonito. E teria sido suficiente.

Mas a série escolheu construir algo mais cuidadoso: uma narrativa sobre o que acontece quando alguém se perde não num lugar, mas em si mesmo. Sobre o que a Besta realmente é, não um monstro da floresta, mas a voz que diz você nunca vai sair daqui, então pare de tentar. Sobre o que significa seguir em frente quando seguir em frente parece impossível.

O purgatório, em quase todas as tradições que o descrevem, não é um destino. É um processo.

Wirt e Greg saem do lago. Molhados, exaustos, vivos.

E a floresta fica para trás com a Besta, com o Lenhador, com todas as almas que não conseguiram escolher voltar.