MK Ultra – o experimento real que parece ficção científica

Existe uma categoria especial de conspirações, aquelas que foram tão completamente confirmadas, tão oficialmente admitidas, tão exaustivamente documentadas que continuam parecendo invenção mesmo depois de toda a prova estar na mesa.

MK Ultra é a mais importante delas.

Não porque seja a maior conspiração da história americana. Mas porque é a que mais completamente destruiu o argumento de que governos democráticos não fazem esse tipo de coisa. De que existe um limite natural para o que instituições respeitáveis são capazes de ordenar. De que a proteção jurídica de cidadãos é suficiente para impedir que o Estado os use como instrumentos.

MK Ultra destruiu esse argumento com documentos assinados, testemunhos sob juramento e uma audiência televisionada no Senado americano.

E ainda assim, décadas depois, a maioria das pessoas que ouviu o nome nunca soube exatamente o que foi. Nem o que ainda não sabemos.


O contexto que tornou tudo possível

Para entender MK Ultra, é preciso entender o estado mental dos Estados Unidos no início dos anos 1950.

A Guerra Fria havia começado. A União Soviética havia testado sua primeira bomba atômica em 1949, mais cedo do que qualquer estimativa americana esperava. A China havia se tornado comunista. A Guerra da Coreia estava em andamento, e soldados americanos capturados estavam sendo devolvidos com comportamentos que os oficiais de inteligência não conseguiam explicar.

Alguns desses soldados pareciam ter sido programados. Faziam declarações que contradiziam tudo que acreditavam antes da captura. Descreviam torturas e técnicas de interrogatório que não correspondiam a nada no manual americano. A palavra que começou a circular nos corredores da CIA era “lavagem cerebral”, uma tradução aproximada do termo chinês xinao, que descrevia as técnicas de reeducação forçada usadas pelo regime maoísta.

O medo era específico e existencial: e se a União Soviética tivesse desenvolvido técnicas de controle mental que os americanos não tinham? E se agentes soviéticos pudessem ser programados para agir contra sua própria vontade? E se cidadãos americanos pudessem ser convertidos?

Nesse clima, em abril de 1953, o diretor da CIA Allen Dulles autorizou o que seria chamado internamente de Projeto MKULTRA. A justificativa era simples: os soviéticos estavam fazendo isso. Os americanos precisavam entender como, e precisavam de suas próprias capacidades equivalentes.

O que foi autorizado a seguir foi um programa que, por qualquer definição ética contemporânea, constitui crimes contra a humanidade cometidos sistematicamente por uma agência governamental democrática contra seus próprios cidadãos.


O que o programa era e quem comandava

MK Ultra não era um projeto único. Era um guarda-chuva que cobria pelo menos 150 subprojetos distintos, conduzidos em 80 instituições diferentes, universidades, hospitais, prisões, clínicas psiquiátricas em todo o território americano e no Canadá. Envolveu pelo menos 44 faculdades e universidades e dezenas de empresas farmacêuticas.

O homem responsável pela implementação direta foi Sidney Gottlieb, um químico do Missouri, filho de imigrantes judeus, que mancava levemente de um defeito congênito no pé e cultivava sua imagem de intelectual excêntrico. Gottlieb era ao mesmo tempo um místico interessado em budismo zen e o arquiteto de alguns dos experimentos mais monstruosos já conduzidos em tempo de paz por uma democracia ocidental.

Ele acreditava genuinamente no que estava fazendo. Não era um sádico que buscava causar dano por prazer. Era um idealista que havia convencido a si mesmo de que os fins, proteger a América da ameaça soviética justificavam qualquer meio necessário.

Essa convicção tornava Gottlieb mais perigoso, não menos.

Os objetivos do programa eram amplos e evoluíram ao longo dos anos. Em sua formulação inicial, MK Ultra buscava desenvolver técnicas de interrogatório que pudessem extrair informações de prisioneiros resistentes. Mas rapidamente expandiu para incluir: métodos de controle mental que pudessem tornar agentes soviéticos inoperantes, técnicas de implantação de falsas memórias, substâncias que pudessem ser adicionadas secretamente a bebidas para incapacitar alvos, e métodos de induzir amnésia seletiva.


O LSD como arma e o que foi feito com ele

A substância que se tornou central no programa foi o LSD, o ácido lisérgico dietilamida, sintetizado pelo químico suíço Albert Hofmann em 1938 e que produziu seus primeiros efeitos alucinógenos conhecidos em 1943 quando Hofmann acidentalmente o absorveu pela pele.

Nos primeiros anos da década de 1950, a CIA comprou a totalidade do estoque de LSD disponível no mundo, vários quilos, suficientes para dezenas de milhões de doses da empresa farmacêutica suíça Sandoz. O objetivo era impedir que os soviéticos tivessem acesso à substância enquanto os americanos estudavam seus efeitos.

Os experimentos que se seguiram foram divididos em duas categorias: voluntários e involuntários.

Os experimentos com voluntários, soldados, agentes da CIA, prisioneiros que receberam reduções de pena em troca de participação, eram já eticamente problemáticos, dado o poder desequilibrado nas relações que tornava o “consentimento” questionável. Mas o que acontecia com os sujeitos involuntários era de outra magnitude.

Pacientes psiquiátricos receberam doses maciças de LSD sem saber. Presidiários foram drogados repetidamente durante semanas. Prostitutas, contratadas por agentes da CIA em casas montadas especialmente para o programa em São Francisco e Nova York, atraíam clientes que eram então drogados sem consentimento enquanto agentes observavam atrás de espelhos unidirecionais.

Em alguns experimentos, os sujeitos receberam doses de LSD por dias ou semanas consecutivos. Os efeitos documentados incluíam episódios psicóticos, paranoia permanente, dissociação prolongada e, em pelo menos um caso confirmado, morte.


Frank Olson: o caso que não podia ser acidente

Em novembro de 1953, um cientista do exército americano chamado Frank Olson participou de uma reunião de trabalho com colegas numa cabana no campo em Maryland. Durante a reunião, sem que ninguém lhe dissesse, sua bebida foi lixiviada com LSD por Sidney Gottlieb.

Nos dias que se seguiram, Olson apresentou comportamento progressivamente perturbado. Era um homem quieto, dedicado, pai de família e estava claramente sofrendo uma crise psicológica severa. Seus superiores o encaminharam a um psiquiatra em Nova York que tinha conexões com a CIA.

Em 28 de novembro de 1953, nove dias depois de ter sido drogado sem consentimento, Frank Olson caiu da janela do décimo andar de um hotel em Nova York e morreu.

A morte foi registrada como suicídio.

A família recebeu a notícia de que Olson havia pulado da janela durante um episódio psicótico. O caso foi arquivado. Durante mais de vinte anos, os filhos de Olson cresceram acreditando que o pai havia se matado.

Em 1975, quando os primeiros documentos de MK Ultra vieram a público, o filho de Frank Olson, Eric, começou a investigar a morte do pai. Em 1994, o corpo de Olson foi exumado. Um médico-legista independente, James Starrs, da Universidade George Washington, examinou os restos mortais e concluiu que havia evidências de trauma craniano que eram inconsistentes com uma queda e consistentes com um golpe na cabeça antes do impacto.

Em outras palavras: Frank Olson pode ter sido assassinado. Empurrado de uma janela depois de ser golpeado, pelo mesmo programa que o havia drogado sem consentimento semanas antes.

O governo americano nunca foi processado pelo caso. A família Olson recebeu uma indenização e um pedido pessoal de desculpas do presidente Gerald Ford em 1975. Eric Olson passou décadas tentando que o caso fosse reaberto como investigação criminal. Nunca foi.


O Dr. Ewen Cameron e os experimentos canadenses

Se os experimentos americanos eram perturbadores, os que Sidney Gottlieb financiou no Canadá através de um subprojeto chamado MKULTRA 68 eram de outra categoria.

O Dr. Donald Ewen Cameron era um dos psiquiatras mais respeitados do mundo na época, presidente da Associação Psiquiátrica Americana, presidente da Associação Psiquiátrica Mundial, fundador da Associação Psiquiátrica Canadense. Trabalhava no Instituto Allan Memorial, ligado à Universidade McGill em Montreal.

Cameron tinha uma teoria própria que chamava de “psiquia­tria de reprogramação”. Acreditava que transtornos mentais graves poderiam ser tratados apagando completamente os padrões de comportamento existentes e reescrevendo a personalidade do paciente do zero. Era uma ideia que a comunidade científica mainstream rejeitava, mas que a CIA financiou entusiasticamente porque coincidia perfeitamente com seus interesses em controle mental.

O que Cameron fazia com seus pacientes, muitos deles internados voluntariamente para tratamento de condições relativamente menores como ansiedade e depressão era o seguinte:

Primeiro, “depadroning”: o paciente era mantido em sono induzido por barbitúricos por semanas ou meses consecutivos, acordado apenas para sessões de eletrochoque administradas em intensidades muito superiores às consideradas terapêuticas, até 30 vezes a dose padrão por dia, por semanas. O objetivo era destruir os padrões de comportamento existentes.

Depois, “psíquica driving”: o paciente, em estado de total vulnerabilidade após semanas de sono forçado e eletrochoque, era exposto repetidamente a mensagens gravadas em fita, às vezes a mesma frase repetida centenas de miles de vezes através de um capacete de áudio. O objetivo era implantar novos padrões comportamentais.

Os resultados eram devastadores e permanentes. Pacientes que entraram no Instituto Allan com depressão saíram sem memória de suas vidas anteriores. Sem reconhecer familiares. Sem saber seu próprio nome. Alguns voltaram a estados de incontinência e comportamento infantil que duraram anos.

Em muitos casos, esses efeitos nunca foram revertidos.

A CIA financiou Cameron de 1957 a 1960 através de fundações de fachada. Quando o programa foi encerrado, Cameron continuou seus experimentos com financiamento canadense por mais alguns anos, aparentemente por conta própria.

Em 1988, oito sobreviventes canadenses processaram a CIA. O governo americano pagou indenizações sem admitir responsabilidade legal. O governo canadense, que havia financiado parte dos experimentos independentemente, demorou mais para reconhecer sua responsabilidade e pagou indenizações adicionais a mais de 250 vítimas.


Como veio à tona e o que foi destruído antes

O colapso de MK Ultra começou não com uma investigação, mas com um arrombamento.

Em 1971, Richard Helms, diretor da CIA, ordenou a destruição de todos os documentos relacionados a MK Ultra. A ordem foi cumprida, arquivos foram triturados, fitas foram apagadas, registros foram incinerados. O programa havia durado quase vinte anos, e a evidência de sua existência foi sistematicamente eliminada.

Quase toda.

Em 1977, durante uma busca por documentos financeiros num depósito da CIA em Rockville, Maryland, 20.000 páginas de registros de MK Ultra foram descobertas, arquivadas por engano junto com documentos orçamentários que não haviam sido incluídos na ordem de destruição. Eram registros financeiros, mais do que registros de experimentos, mas continham informação suficiente para reconstruir a escala e a natureza do programa.

A descoberta desencadeou o que ficou conhecido como Audiências Church, uma série de audiências do Comitê Seleto do Senado sobre Atividades de Inteligência, presidido pelo senador Frank Church. Em agosto de 1977, Sidney Gottlieb testemunhou perante o Comitê. Admitiu a existência do programa. Defendeu sua necessidade à época. Expressou algum arrependimento pela morte de Frank Olson.

Nunca foi indiciado por nada.

O que as 20.000 páginas sobreviventes representam é provavelmente uma fração pequena do total que existia. Os experimentos mais extremos, os resultados mais comprometedores, os nomes das vítimas individuais, tudo isso foi destruído antes de 1977. O que sabemos sobre MK Ultra é o que sobreviveu por acidente.

O que não sabemos é, por definição, impossível de quantificar.


O que ainda está oculto

Décadas depois das audiências do Senado, várias questões centrais sobre MK Ultra permanecem sem resposta definitiva.

O número real de vítimas é desconhecido. Os documentos sobreviventes identificam alguns sujeitos de experimentos por nome, mas a maioria aparece apenas como “sujeito” em registros financeiros ou protocolos de pesquisa. Estimativas variam enormemente de algumas centenas a vários milhares de pessoas drogadas sem consentimento ao longo dos vinte anos do programa.

O que foi realmente descoberto é desconhecido. MK Ultra produziu décadas de pesquisa sobre os efeitos de LSD, barbitúricos, mescalina, escopolamina e dezenas de outras substâncias em seres humanos. Parte dessa pesquisa provavelmente informou desenvolvimentos posteriores em psicofarmacologia, mas quais, e como, é impossível rastrear dado que os registros de resultados foram destruídos.

Se o programa realmente terminou é desconhecido. MK Ultra foi oficialmente encerrado em 1973, quando Helms ordenou a destruição dos documentos. Mas programas sucessores, alguns identificados em documentos desclassificados, como o Projeto ARTICHOKE e o Projeto BLUEBIRD que antecederam o próprio MK Ultra, mostram que a CIA tinha tradição de renomear programas encerrados sob pressão e continuá-los sob nova denominação.

A extensão da colaboração acadêmica é desconhecida. Quarenta e quatro universidades participaram de subprojetos de MK Ultra. Em alguns casos, os pesquisadores sabiam que trabalhavam para a CIA. Em outros, recebiam financiamento através de fundações de fachada sem saber a origem real dos recursos. Quais pesquisadores sabiam, e o que exatamente era conduzido em quais instituições, permanece parcialmente obscuro.


O legado que não passa

MK Ultra não é só história. É um precedente, e precedentes importam.

Em 2014, o Comitê de Inteligência do Senado americano publicou um relatório parcialmente desclassificado sobre as técnicas de interrogatório usadas pela CIA após o 11 de Setembro. O relatório documentou o uso de privação de sono, confinamento em caixas, afogamento simulado e outras técnicas em prisioneiros mantidos em locais secretos ao redor do mundo.

Os advogados que aprovaram essas técnicas as chamaram de “interrogatório aprimorado”. Outros as chamaram de tortura. O debate sobre sua legalidade e eficácia continuou por anos.

O que ninguém disse explicitamente, mas que estava implícito em cada linha do debate, é que a pergunta “o Estado pode fazer isso com seres humanos em nome da segurança nacional” já havia sido respondida uma vez. Em laboratórios de universidades americanas, em clínicas psiquiátricas canadenses, em apartamentos em São Francisco e Nova York, por quase vinte anos, entre 1953 e 1973.

A resposta que a história deu, na época, foi: sim, se ninguém souber.

Isso não é ficção científica. É o registro oficial, admitido sob juramento, preservado em 20.000 páginas que sobreviveram por acidente a uma ordem de destruição.

O que fica, depois de tudo, é uma pergunta que não tem resposta confortável: se isso foi o que sobreviveu, o que foi destruído?